Ter não é poder!

José Marcos

Todos nós já nascemos em um mundo profundamente determinado por paradigmas que moldam a nossa forma de ser e agir sem que precisemos refletir. Dentre eles, está o paradigma do consumismo, imprimindo a falsa verdade de que “ter é poder”. Há uma orquestração de coisas para nos ensinar que cada pessoa vale o que possui. Roupas, assessórios, imóveis, automóveis, eletrônicos, restaurantes, hotéis, tudo determina quem somos, de maneira que o poder de compra e consumo define a nossa identidade.

Somos impulsionados a ter o máximo de bens possível, consumir tudo o que podemos e descartar tudo o que não queremos. Como resultado, criamos um estilo de vida insustentável que demanda mudanças urgentes e radicais. Diante disso, sugiro uma pausa para pensarmos em algumas perguntas: qual é a minha contribuição pessoal para amenizar impactos globais? Qual a orientação bíblica para as minhas relações de consumo? Qual é a relação entre o que possuo/consumo e o meu testemunho cristão?

Pensando em questões como estas, afirmo que o cristão pode dar uma contribuição/testemunho ao mundo pelo simples fato de moldar o seu estilo de vida à proposta bíblica, tendo como grande exemplo prático Jesus, o Cristo/Nazareno. Vamos pensar nisso agora? Vamos pensar em alguns paradigmas que podem mudar nossas práticas?

1º – Dominar a Criação (Gênesis 1.26) X Cultivar e guardar a Criação (Gênesis 2.15). Queremos o máximo de resultado com o mínimo de esforço, por isso, somos exploradores por excelência e, é isso que tem predominado em nossa relação com a Criação de Deus, não sendo à toa que ela geme de dores por causa da nossa vaidade (Romanos 8.19-25). Mas, não foi para explorar até matar que o Senhor nos constituiu, e sim, para sermos cultivadores e guardadores da Obra Criada. Temos responsabilidade espiritual com a Criação de Deus. Isso demanda um estilo de vida que não seja exploratório, mas, cultivador. Em vez de espoliarmos os recursos, devemos usá-los com prudência para que tenhamos sustentabilidade. Isso já nos traz implicações: o que podemos fazer para gastar menos as coisas? Precisamos mesmo de tudo o que temos?

2º – Vida abundante X Vida plena (João 10.10). A palavra grega que algumas versões traduzem por abundante (vida abundante), também pode ser traduzida por plena (vida plena). Entre abundância e plenitude pode haver uma grande diferença: abundância tem a ver com sobras e plenitude tem a ver com harmonia. Nossas vidas só serão plenas quando as coisas estiverem harmonizadas e isso também envolve a nossa relação com o que temos e consumimos.

Nos últimos tempos tem crescido uma ideologia que afirma que quanto mais recebemos coisas, mais somos abençoados por Deus. Logo, uma multidão de crentes tem buscado ter sempre mais. Esse conceito casa bem com o de abundância, mas, a vida que Cristo tem para nós é a “vida plena”, onde temos o que é suficiente para viver a paz (shalom) de Deus. Como isso se dá na prática? Até podemos não ter o colchão mais caro, porém, termos um sono reparador; não morarmos em uma mansão, mas, termos um lar sadio. Buscando plenitude de vida, “não gastaremos o nosso dinheiro com o que não é pão” (Isaías 55.2). Por isso, Jesus lembra que devemos olhar as aves do céu e os lírios do campo (Mateus 6.26-34), para crermos que Deus nos dará sempre o necessário para vivermos com segurança – nada mais, nada menos.

3º – Deus X Mamon (Mateus 6.24). Mamon é o deus pagão representante das riquezas que vêm por meio da ganância e da avareza. Por amor ao dinheiro, muitos se desviam do Caminho (I Timóteo 1.10). Há uma presente tensão em toda a Bíblia entre o amor ao dinheiro e o amor a Deus. Não dá para amar aos dois, pois esses dois amores findam por exercer senhorio sobre nós, e ninguém pode servir a dois senhores sem desagradar a um deles. O acúmulo de bens é o grande paradigma capitalista. Isso é tão gritante que, hoje, 1% das pessoas mais ricas do mundo possui a mesma quantidade de bens do restante. Que pecado! Mas, é comum que queiramos ter o máximo possível. Nesse afã, tendemos a concentrar boa parte de nossa atenção e energia para acumularmos mais, ganharmos mais, sem quase nunca nos darmos conta de que essa estrada nos afasta do plano de Deus e essa falsa abundância pode nos levar à verdadeira miséria.

Outra faceta dessa busca desenfreada por lucro a todo custo é vista na exploração de mão-de-obra. Nas relações comerciais onde o enriquecimento é a prioridade, há uma fatal tendência à quebra de princípios éticos e humanos. Foi isso que justificou a escravatura em tempos passados, e a exploração de mão-de-obra em tempos atuais. Daí, a importância de não só consumirmos o necessário, mas também, ao efetuarmos as compras, refletirmos sobre a origem do que compramos, pois, podemos cair no engano de sermos usados para fortalecer transações trabalhistas ilícitas e desumanas. Hoje em dia, cada vez mais crescem as oportunidades de negócios justos em feiras de produtos de economias alternativas (economia circular, criativa, solidária, etc.), que fomentam não somente o consumo de produtos de procedência, mas ainda, de produtos cujo meio de produção e comercialização são operados com justiça.

Diante disso, que implicações práticas surgem para nós?

1ª – Se queremos ser discípulos de Cristo, precisamos, invariavelmente, nos parecer com Ele. Não dá para ser discípulo de uma pessoa sem imitá-la. A grande pergunta que podemos fazer agora é: eu estou me parecendo com o Nazareno? Jesus era santo, servo, simples. Era humanamente santo, humildemente servo e radicalmente simples. Essas três características estão profundamente interligadas e precisam ser a matriz de nossa espiritualidade.

2ª – Alguém já disse que “sabedoria é aprender a amar as pessoas e usar as coisas”. O inverso é destrutivo. Se amarmos as coisas e usarmos as pessoas, cavaremos nosso próprio abismo. As coisas que temos devem estar a serviço do próximo e nunca o contrário.

3ª – Não devemos acumular coisas, pois isso nos destruirá e destruirá a criação de Deus. Ter não é poder. Dar é poder!  Esse é um paradigma cristão que o mundo desconhece e, se conhecê-lo a partir das nossas atitudes, daremos um grande testemunho de Cristo.

Quando pensamos nas relações de compra e consumo a partir desses paradigmas, as demais coisas virão naturalmente. Cuidaremos da natureza porque essa é a nossa função e a sua restauração faz parte do plano de salvação (Romanos 8.19-25); consumiremos menos e com mais responsabilidade, pois “nem só de pão vive o Homem”; não nos lançaremos em busca das riquezas, pois o amor a elas nos afasta de Deus; teremos uma vida simples, pois, sem isso, não conseguiremos imitar o Mestre e, portanto, comprometeremos o nosso discipulado. Depois de pensarmos assim, podemos até pensar em aquecimento global, extinção de recursos naturais, exploração predatória, concentração de renda, pois, tudo será somente consequência do desenvolvimento sadio de nossa fé.

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