IGREJA E FORMAÇÃO DE DISCÍPULOS: reflexões sobre crescimento espiritual

Marcos Mendes

A igreja de Jesus Cristo tem como principal incumbência na terra, ser uma agência do Reino de Deus, conduzindo pessoas a Cristo através da proclamação do evangelho, levando-lhes ao crescimento espiritual pelo discipulado e servindo ao mundo por meio do trabalho amoroso e compassivo.

Na busca por cumprir esses papéis, muitas igrejas, através de suas lideranças, têm desenvolvido programas, métodos, estratégias, enfim, uma diversidade de trabalhos que, não raro, acabam por dar uma complicar um processo que deveria, à luz das Escrituras, ser simples. E, nesse sentido, o que se percebe é uma igreja que se torna mais instituição do que igreja em si, e crentes tão assoberbados de atividades, que não encontram tempo para aprender, crescer e ser verdadeiramente discípulos.

Será que precisamos de tanto para seguir ao Mestre? Será que as estratégias, planos e costumes humanos são mais eficazes do que a explanação clara e simples  das Escrituras, bem como, uma vida de serviço ao próximo? Creio que essas são questões que já passaram, ainda que minimamente, na cabeça de muitos líderes que, sinceramente, desejam ver o crescimento espiritual do rebanho e o Reino de Deus implantado no meio das comunidades onde servem.

É possível observar em diversas igrejas a azáfama que envolve a vida de seus membros que além dos cultos semanais, da escola bíblica dominical, dos trabalhos de oração e visitação, são arrastados para ensaios, “evangelismos”, seminários, campanhas, confraternizações, viagens, entre um “não sei quanto” de atividades. Só para dar um exemplo, pode-se citar os trabalhos voltados à família e que afastam as pessoas do convívio familiar por diversas noites, ou trabalhos nos quais somos exortados a ganhar amigos não crentes para Jesus, no entanto, as muitas ocupações na igreja nos impedem de termos contato e conviver com esses amigos.

Parece-me que é importante repensar o que realmente é fundamental na vida da igreja. Como seremos e faremos discípulos se não somos imersos em um processo que nos traga essa realidade, a começar pelo tempo necessário para aprender e exercitar o que aprendemos.

Em seu excepcional livro “Igreja Simples”, Thom Reiner e Eric Geiger apresentam a simplicidade como a chave que leva a igreja a tornar-se vibrante e a crescer, alcançando e amadurecendo as pessoas, impactando o mundo e expandindo o Reino. E como um exemplo de igreja que vivencia essa realidade, citam uma igreja, a qual chamaram “Igreja da Cruz”, cujo propósito e processo estavam resumidos de forma única em sua declaração: “Amar a Deus, amar aos outros e servir ao mundo”. Simples assim!

Os autores explicam que naquela igreja, o processo de crescimento espiritual começa no “amar a Deus”, através de cultos inspiradores e que contém um ensino dinâmico. O culto seria “a porta de entrada da igreja para os visitantes, as pessoas novas e para os não cristãos” (RAINER e GEIGER, 2012, p. 55). O segundo passo, “amar aos outros”, tem como foco o relacionamento entre as pessoas e a ferramenta para esse fim seria os pequenos grupos. Nos cultos, as pessoas são estimuladas a participar de um pequeno grupo.

Finalmente, o terceiro passo desse processo, “servir ao mundo”, implica no envolvimento das pessoas em um dos ministérios da igreja, algo que é incentivado nos pequenos grupos. Nesse caso, os autores esclarecem que “enquanto algumas equipes se concentram na igreja, outras se concentram na comunidade”.

O que me chama a atenção nesse processo, é que o foco reside em crescimento espiritual e não necessariamente em quantidade de programas ou atividades. Acredito que o alvo precisa (e deve) ser a formação em cada crente, de um discípulo que, na expressão de Jorge Henrique Barro, “imita Cristo (imitatio Christi) para ser moldado por Ele na participação daquilo que Ele participa (participatio Christi) para ser testemunha de Cristo (testificare Christi)” (BARRO, 2016, p. 61).

A contemporaneidade tem recebido diversos epítetos: pós-modernidade (LYOTARD, 2009), modernidade líquida (BAUMAN, 2007), tempos hipermodernos (LIPOVETSKY, 2007), etc. E três de suas características marcantes são:

– a velocidade com que a vida se desenvolve, provocando na maioria das pessoas com que convivemos, uma sensação de pressa permanente e desnorteamento;

– a superficialidade do pensamento, ou seja, a velocidade e a profusão de informações que chegam até nós é tão intensa, que não há tempo de digeri-las e compreendê-las, por meio de uma reflexão crítica, perscrutadora, que permita aprofundar nosso conhecimento e buscar a verdade por trás dos fatos e das palavras; e

– a globalização de ideias, conceitos e princípios, através do desenvolvimento e da inovação tecnológica, que nos expõe e tenta, cotidianamente, à formação de uma cultura universal, tirânica, opressora e emburrecedora.

Esse é uma parte do cenário com que a igreja tem se deparado (muitas vezes, dentro de suas paredes) e está imersa. Como lidar com esse tempo? Como exercer nosso papel de embaixada do Reino e não simplesmente de organização religiosa, diante dos desafios atuais?

Penso que não há uma resposta pronta, acadêmica, única e definitiva para essas indagações. As mudanças são elementos permanentes e cada vez mais velozes na vida contemporânea. Então, sugiro que a única forma de atende-las satisfatoriamente está numa formação espiritual saudável, segura e constante, fundada em princípios e valores cristocêntricos. Em outras palavras, o crescimento e avanço da igreja, salutar em sua doutrina e pleno de vida, residem em um discipulado cujo foco seja conduzir pessoas a Cristo e transforma-las em “cópias de Jesus”, no tocante ao seu pensamento e caráter.

É preciso fazer com que o texto do apóstolo Paulo, em Gl 2.20, seja uma verdade espiritual, teológica e prática, na vida de cada crente: “Fui crucificado com Cristo; assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. Portanto, vivo neste corpo terreno pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”.

Enfim, que essa vida, a qual nos conduz ao amor a Deus (Mt 22.37,38) e ao amor ao próximo (Mt 22.39), seja intensa, dinâmica e mobilizadora da multiforme sabedoria divina em nós, por meio dos dons e ministérios presentes na igreja, para que a graça do Senhor seja anunciada e manifesta a todos, por meio de nosso serviço aos homens. Como escreveu Paulo em sua carta aos Efésios:

 

O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função”. (Ef 4.14-16)

 

Bibliografia

 

BARRO, Jorge Henrique. Discipulado Missional: andar como Ele andou. Londrina, PR: Descoberta, 2013.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Tradução Mário Vilela. São Paulo: Editora Barcarolla, 2007.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Tradução Ricardo Corrêa Barbosa. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

RAINER, Thom S.; GEIGER, Eric. Igreja Simples: retornando ao processo de Deus para fazer discípulos. Tradução Hilton Figueiredo. 2. ed. Brasília, DF: Palavra, 2012.

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